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A importância das ferramentas digitais para as empresas


Dr. Paulo Nunes de Almeida, Presidente da AEP - Associação Empresarial de Portugal

14/06/2018
A transformação digital é um assunto incontornável, que não se confina ao mundo empresarial, estendendo-se a toda a Sociedade. Por isso, cidadãos, empresas e diversas entidades, públicas e privadas, devem estar particularmente atentos. A AEP – Associação Empresarial de Portugal, enquanto entidade representativa do tecido empresarial, de âmbito nacional e multisetorial, tem também vindo a dedicar uma particular atenção a esta temática.

A nova era digital envolve, como noutros processos de transformação industrial já ocorridos, uma disrupção de conceitos e de tecnologias, de que são exemplo a Computação em nuvem, a Internet das coisas, Big data, Inteligência artificial, Robótica e Blockchain. O processo de digitalização é muito complexo e abrangente, com impactos no conjunto de bens e serviços oferecidos, tendencialmente mais digitais, no funcionamento das cadeias de valor, nos modelos de negócio, no mercado de trabalho e nas competências.

Os estudos apontam que este acelerado processo de transformação comportará riscos e oportunidades e gerará, inevitavelmente, vencedores e vencidos. São já visíveis vários sinais de obsolescência e de falência de antigos negócios, mas em simultâneo assiste-se ao nascimento e crescimento acelerado de novos negócios. Importa, assim, maximizar o número de vencedores e minimizar o número de vencidos, sendo que muitos destes podem, posteriormente, virem a tornar-se vencedores.

Alguns estudos1 referem que "os benefícios potenciais, através do aumento da produtividade e da competitividade, da criação de novos postos de trabalho mais qualificados, da maior eficiência na utilização dos recursos e da melhoria das condições de vida e de trabalho das populações, deverão suplantar em larga medida os efeitos negativos deste processo".

O aumento da eficiência operacional é, assim, apontado como um dos benefícios mais atrativos do ponto de vista económico. As cadeias de valor tendem a apresentar de forma crescente soluções personalizadas desenvolvidas a partir de informação sobre as preferências dos consumidores (Big data).

Ao nível das cadeias de valor digitais, o caso do setor automóvel é muito interessante, apontando-se que "o valor dos veículos está a mudar de uma percentagem de 90% associada ao hardware (veículo físico propriamente dito) para uma percentagem de 50% associada ao software e experiência de condução. Os veículos passarão a ser plataformas volantes de software capazes de fornecer serviços baseados em dados, sensores e analytics, permitindo a empresas tecnológicas competir diretamente com os fabricantes de automóveis incumbentes".

Poderia enumerar aqui outros exemplos, igualmente interessantes e em setores completamente distintos, como é o caso da transformação digital no setor financeiro (Banca), com relevo para o papel das empresas tecnológicas (fintech) e das moedas virtuais (bitcoin), ou da indústria de conteúdos audiovisuais, com a crescente penetração de serviços de media via streaming e com uma produção de conteúdos muito baseada na análise das preferências dos espectadores.

Quanto à importância das ferramentas digitais para o universo empresarial português, também reconheço que esta nova era da digitalização, ao eliminar barreiras físicas e geográficas, traz enormes oportunidades. Uma das principais vantagens é a de introduzir nos mercados uma "equidade" relativa impensável ainda há bem pouco tempo atrás, permitindo às empresas de menor dimensão o acesso a um mercado global, independentemente do local onde se encontram, que era sobretudo dominado pelos grandes players.

Porém, as empresas portuguesas têm que estar preparadas por forma a conseguirem maximizar os ganhos potenciais. Nos contactos muito próximos que tenho com o tecido empresarial, sei que muitas empresas portuguesas estão bem preparadas e, em alguns casos, estão mesmo na vanguarda em termos de incorporação das tecnologias digitais no seu modelo de negócio. Contudo, esta situação está longe de ser transversal ao tecido empresarial nacional.

Como bem sabemos, a estrutura do tecido empresarial português tem um peso fortíssimo de empresas de menor dimensão, com o segmento das microempresas a representar mais de 96% do número total de empresas. Muitas vezes, encontramos neste segmento (mas também noutros de maior dimensão) uma escassez de competências técnicas e, por vezes de gestão, que tendem a dificultar a orientação dos negócios pela via da incorporação tecnológica digital. A esta dificuldade juntam-se outras, que a AEP, nomeadamente através da nossa Área Internacional, já muito bem identificou, que se colocam com especial acuidade quando está em causa uma orientação crescente para os mercados internacionais, e que passo a citar:

  • A dificuldade de penetração em mercados internacionais pela via digital, em virtude da reduzida valorização dos produtos nacionais face à sua real qualidade e, por vezes, da falta de adequabilidade a um determinado mercado ou perfil de consumidor;

  • O desconhecimento generalizado das tecnologias digitais de suporte às vendas eletrónicas para os mercados externos ao nível das suas potencialidades, em particular no que respeita ao e-commerce, assim como das principais tendências de evolução;

  • O nível de desconfiança perante os aspetos menos positivos associados à digitalização dos processos comerciais, elevando o sentido de risco relacionado com a perda de negócio.

A estes pontos fracos, opõe-se como pontos fortes:

  • Uma oferta nacional diversificada com produtos transacionáveis e internacionalizáveis de elevada qualidade e de grande potencial de exportação; - A consciência dos empresários para a necessidade de apostarem na economia digital em contexto internacional;

  • A existência de um ambiente favorável à internacionalização das PME e à inclusão na economia digital, enquanto estratégias de desenvolvimento defendidas para o país;

  • A existência de plataformas de e-commerce e e-marketing poderosas e consolidadas a nível mundial que permitem potenciar as exportações e colocar a oferta nacional acessível a milhões de consumidores.

A tudo isto devemos juntar um manancial de oportunidades:

  • Número crescente de utilizadores de internet e de consumidores online, que se consubstancia num enorme e global mercado potencial para a oferta portuguesa;

  • Potencial de expansão do comércio internacional proporcionado pelo e-commerce, pela possibilidade de ser operado em qualquer lugar e em qualquer momento, sem interrupção entre pessoas e entidades fisicamente presentes em locais distintos;

  • Mecanismos de apoio e financiamento à introdução e ao desenvolvimento da economia digital nas PME, como ferramenta indispensável ao desenvolvimento do negócio e ao seu processo de internacionalização.

O alcance do mercado gigantesco de consumidores, por via da economia digital, em particular do e-commerce e da presença das empresas em plataformas eletrónicas de compra e venda de produtos, como os emergentes e importantes marketplaces, ainda está longe de ser atingido pelas PME portuguesas com um grau considerável de eficiência, no sentido do pleno aproveitamento de todas as vantagens inerentes.

A abordagem isolada adotada por muitas PME portuguesas - desenvolvimento de um website online e tímida tentativa de replicar o ambiente físico de loja em ambiente digital – é reflexo do estado embrionário do grau de conhecimento e ação destas empresas através de todos os meios providenciados pela Economia Digital e plataformas de e-commerce.

É justamente para colmatar esta limitação que a AEP pretende desenvolver um novo projeto, o "Portugal Digital Export", cujo objetivo primordial se traduz no apoio à internacionalização das empresas portuguesas via canal digital, impulsionando ações comerciais internacionais e estimulando a produção de bens, serviços e soluções competitivas, via utilização de ferramentas digitais que permitam o acesso a novos mercados e oportunidades de crescimento, assegurando, desta forma, a adoção de uma estratégia integrada de venda e presença perante consumidores cada vez mais exigentes.

A par do fomento à internacionalização das empresas via adoção da tecnologia digital, a AEP tem vindo a realizar inúmeras ações de formação muito focadas nas áreas emergentes das tecnologias digitais, nomeadamente através do CESAE, que é hoje um Centro de referência na área da formação e desenvolvimento de competências digitais, integrando a CPED – Coligação Portuguesa para a Empregabilidade Digital. Posso mencionar vários exemplos de ações de formação que temos vindo a desenvolver, "Desenhar vendas e marketing inbound nas PME", "Marketing Digital na Estratégia do Negócio", "Como iniciar sua estratégia digital começando por advanced analytics" e "Websites e lojas online com wordpress". A estes exemplos podia juntar outros projetos muito interessantes em que o CESAE está neste momento envolvido, em parceria com entidades do Sistema Científico e Tecnológico, como é o caso do Projeto "Industry 4.0 Business Models for Small and Medium Size Enterprises", com o propósito de abordar a maturidade dos modelos de negócios das PME no contexto da Indústria 4.0.

O desenvolvimento das competências nas tecnologias digitais é fundamental para melhorar a produtividade e competitividade das empresas. É também muito importante se atendermos a que começam a surgir cenários de destruição de emprego devido à desmaterialização crescente de processos clássicos de produção e comercialização de produtos, havendo mesmo quem antecipe o desaparecimento de inúmeras profissões, com o aparecimento de outras que hoje ainda não conhecemos. Os especialistas apontam que apesar do aumento da relevância da robotização, as pessoas e suas competências continuarão a estar no centro da atividade económica.

Para além do contributo na melhoria e adaptação das competências dos ativos às exigências colocadas pelas inovações tecnológicas digitais, a intervenção da AEP tem-se posicionado também a um nível mais institucional, através da realização de outras iniciativas ou de uma participação ativa em diversos fóruns. Recordo que no ano passado as VIII Jornadas de Serralves, organizadas pela Fundação AEP e Fundação de Serralves, tiveram precisamente como tema de debate "A 4ª Revolução Industrial". Por outro lado, neste momento a AEP participa no Conselho Estratégico para a Economia Digital, criado pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal, que reúne dezenas de representantes do setor, contribuindo para a construção do pensamento estratégico da economia digital em Portugal.

Finalmente, terminava com uma nota sobre o aumento da exposição ao risco de violações de segurança e da privacidade - os chamados "Ciber Riscos", potenciados pela elevada e contínua interconexão de informação, que as empresas e os cidadãos terão que enfrentar.

Segundo um estudo da Marsh, "A visão das empresas portuguesas sobre os riscos 2018", mais de metade das empresas (57%) considera que os ataques cibernéticos são o principal risco que enfrentam este ano, por provocar, no pior cenário, um colapso dos sistemas. O estudo refere que é a primeira vez que os ataques cibernéticos foram considerados o maior risco para as empresas, sublinhando, ainda, a inclusão nos lugares cimeiros o item "Roubo e Fraude de Dados" e apontando a transposição para Portugal do Regulamento Geral de Proteção de Dados como um desafio acrescido.
Não significa, porém, que as empresas não adotem, ou não venham a adotar, medidas no sentido de reduzir o seu risco de exposição e, por essa via, mitigar potenciais perdas – mas é mais um custo de contexto para as empresas, a juntar aos múltiplos já existentes. Também aqui a AEP tem estado na linha da frente, com a implementação de diversas ações de formação no âmbito do Regulamento Geral de Proteção de Dados.

Reafirmo o que tenho sublinhado noutras ocasiões. É, seguramente, um difícil caminho que temos que percorrer, com enormes e crescentes exigências, mas que não deixará de estar ao nosso alcance. Também neste tema da economia digital, estou certo que o tecido empresarial português saberá, como já o demonstrou noutras situações, superar mais este desafio, capaz de acompanhar estas mudanças, substituindo os produtos e serviços atuais por novos, ou significativamente melhorados, e novas soluções, conseguindo proporcionar uma mais plena satisfação aos seus clientes e utilizadores.

Paulo Nunes de Almeida
Presidente da AEP

P.S. Uma boa notícia que acabo de ler há minutos no portal SAPO. Startup portuense dashdash acaba de levantar oito milhões de dólares de investimento numa ronda liderada pela norte-americana Accel. Empresa oferece uma plataforma de criação fácil de aplicações web.

1Estudo "Avanço da Economia Digital em Portugal", de outubro de 2017, Augusto Mateus & Associados.

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